Pagamento suspeito a testemunha-chave ‘deveria’ causar reviravolta no mensalão

 
 

 

por Helena Sthephanowitz, no sítio Rede Brasil Atual

 

Em agosto último, o blogueiro Reinaldo Azevedo, da revista Veja, pediu para seus leitores espalhar na internet a história de uma “ex-petista”, que teria perdido o emprego no Banco do Brasil por se negar a atestar campanha publicitária da DNA Propaganda, e estaria passando dificuldades por isso. O texto era tirado de uma “reportagem” da própria revista.

Tratava-se de Danevita Ferreira de Magalhães, ex-gerente do Núcleo de Mídia do BB. Segundo seu depoimento ao Ministério Público no processo do chamado “mensalão”, ela declarou que teria se recusado a assinar documentos atestando a realização de campanhas publicitárias, pois saberia que eram simuladas para desvio de dinheiro; e disse que quem mandava assinar era Henrique Pizzolato, o então diretor de marketing.

Esse depoimento foi peça-chave da denúncia pelo Procurador-Geral da República (pags. 162 a 165), e foi citado como prova para condenação dos réus envolvidos no caso da Visanet por diversos ministros do STF.

Acontece que os doutores Roberto Gurgel e Joaquim Barbosa deixaram passar despercebido nos autos um fato que provoca uma reviravolta nesse testemunho, a ponto de perder a credibilidade.

Está nas páginas de 77 a 83 do relatório da Polícia Federal do inquérito 2474-1/140, sobre o inquérito policial 002/2007-FINIDCORIDOF, conduzido pelo delegado PF Zampronha, solicitado pelo ministro Joaquim Barbosa.

Tal relatório rastreou o caminho do dinheiro do Fundo de Incentivo Visanet para a DNA Propaganda, e para onde foi o dinheiro depois disso. Encontrou oito pagamentos da DNA para a empresa Diretorial Planejamento e Representações Ltda, em 2003 e 2004, no total de R$ 2.297.671,18.

O dono da Diretorial é Domingos Fernando Cavadinha Guimarães Filho, genro do ex-senador Marco Maciel. A empresa é estabelecida em Recife e atuava intermediando anúncios de uma empresa de São Paulo que explorava relógios termômetros instalados nas ruas da capital paulista.

O delegado da PF enxergou nessa intermediação uma espécie de “pedágio” desnecessário. Afinal por que as agências de publicidade que serviam ao Banco do Brasil não negociavam diretamente com a empresa de São Paulo, sem ter que dar a volta passando por Pernambuco? 

Mas o mais revelador vem a seguir. Ao quebrar o sigilo bancário da Diretorial, foi encontrada uma transferência de R$ 25 mil, no dia 10 de março de 2003, para Danevita Ferreira de Magalhães, a testemunha-chave citada acima.

Ou seja, parte do dinheiro que saiu do Fundo Visanet, liberado com a participação de Danevita, acabou caindo na conta dela, após passar pela agência de publicidade, e depois pela empresa do genro do ex-senador pernambucano. Com certeza o depoimento de Danevita usado para fundamentar a Ação Penal 470 (o caso mensalão) fica bastante enfraquecido diante deste fato.

Esse pagamento também desmonta a estória contada pela revista Veja. Na “reportagem” da revista, já dizia que Danevita era funcionária naquele cargo do BB desde 1997, ano em que o Banco do Brasil estava sob comando do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), cujo vice-presidente era Marco Maciel (PFL, atual DEM).

Logo, parece erro da revista dizer que ela seria petista. E após conhecer o relatório do delegado Zampronha, que evita pré condenar alguém, seria recomendável maior apuração sobre os motivos para aquele pagamento de R$ 25 mil, e sobre o que se passava naquela gerência que ela ocupava, antes de elevar a ex-funcionária à condição de mártir.

Datafolha, Cantanhêde e Lei de Newton

 

 

Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

 

– Olha, os questionários de ontem já estavam ruins e os primeiros que a gente tabulou hoje também não estão nada bons…

– Coisa feia?

– Hum, hum…Pior que ontem, começaram a entrar os dados do Nordeste…

– Vou falar com o chefe…Talvez seja o caso de mandar alguém preparar o terreno, dar uma amenizada, dizer que é foram as emendas parlamentares, coisa assim…

– Quem sabe a Cantanhêde? Você sabe que ela não falha…

– É, ainda bem que ainda estamos no meio da tarde, porque de noite ela tem a Globonews, aí complica…


Calma, gente, isso não é uma gravação clandestina.

É um diálogo fictício, mas não impossível.

É que ontem a gente já tinha antecipado aqui que a coluna de Eliane Cantanhêde era uma espécie de terraplenagem para preparar as desculpas para um resultado “ruim” – isto é, um crescimento da popularidade de Dilma Rousseff – na pesquisa que a Folha publica hoje.

Justificativas, portanto, preparadas na quinta-feira, numa pesquisa que o jornal diz ter terminado suas entrevistas ontem, sexta.

A colunista da “massa cheirosa” preparou uma lista de desculpas para o fato de aquela mulher – tonta e atrapalhada, que perdeu o controle de seu governo e que administra um país que está à beira de um colapso econômico – ter crescido no conceito da população assim que se reduziram um pouco as pressões que a mídia desencadeava contra ela, com sua estratégia “macarronada”.

Isto é, primeiro o tomate e depois a massa, fervendo.

Perdoem os amigos por não analisar os dados da pesquisa, mas é que não dá para querer se aprofundar em algo que me lembra um antigo comercial do creme de barbear Bozzano, dos anos 60: “aperta daqui, espreme dali…”

Por exemplo: o “bom e ótimo” subiu seis pontos, o “regular” subiu apenas um, enquanto os conceitos ”ruim e péssimo” caíram três pontos. Frações para lá e para cá, temos uma mudança de tendência mais do que significativa, porque reverte o que o próprio Datafolha acusava como uma queda vertiginosa na aprovação de Dilma.

Eu sou do tempo em que a gente aprendia na escola que a primeira Lei de Newton garantia que a inércia mantinha a tendência do movimento anterior. Do qual a Folha dizia, há um mês: “Pesquisa Datafolha finalizada ontem mostra que a popularidade da presidente Dilma Rousseff desmoronou.A avaliação positiva do governo da petista caiu 27 pontos em três semanas”.

Uma “ligeira recuperação” de Dilma, de seis pontos, é uma espetacular inversão do que a pesquisa dizia.

Vou deixar essa análise para quando se dispuser de paciência e dos dados completos – com todas aqueles “ajustes” da amostra.

Prefiro dar ao leitor, com a ilustração lá de cima, uma explicação gráfica daquela lei de Newton da qual falei, sem qualquer alusão, é óbvio, ao Datafolha ou a Eliane Cantanhêde.

Até porque ambos são, como se sabe, “técnicos e imparciais”, mesmo quando desafiam as leis da Física.

Datafolha e a recuperação de Dilma

 

 
Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho:

Como antecipei ao longo desta semana aqui no blog e nos meus comentários no Jornal da Record News, o inferno astral que abalou o governo da presidente Dilma Rousseff, após os protestos de junho e as más notícias na economia, mudou de lado nos últimos dias, e atingiu em cheio a oposição tucana, agora às voltas com o Metrôgate. Contrariando todas as previsões apocalípticas de analistas e colunistas, o governo não acabou.


Ao contrário, a nova pesquisa Datafolha deste sábado mostra a recuperação parcial da popularidade da presidente, que subiu de 30% para 36%, e a volta do otimismo quanto aos rumos da economia, com a maioria da população esperando melhoras quanto às expectativas de inflação, emprego e salários, que é o que realmente pesa na balança.

A principal razão para esta virada no astral da população em relação ao governo é a queda na inflação, que chegou em julho ao seu índice mais baixo nos últimos tempos, batendo em míseros 0,03%, ao mesmo tempo em que a cesta básica também atingia o menor valor em três anos.

Esta constatação contraria as análises que atribuíam a abrupta queda de popularidade de Dilma registrada nas pesquisas anteriores unicamente às manifestações de protesto que tomaram conta do país no mês anterior.

As notícias alarmistas sobre descontrole da inflação – em alguns casos pontuais houve, de fato, aumento de preços – e o carnaval que alguns porta-vozes do Instituto Millenium fizeram em torno da alta do tomate, colocando até colares do dito cujo no pescoço, é que, a meu ver, fomentaram um clima generalizado de mal estar na onda dos protestos “contra tudo e contra todos”, que acabaram atingindo também o governo federal.

As propostas lançadas por Dilma após o tsunami de junho – consulta popular sobre a reforma política e o programa “mais médicos”, entre outras -, bastante combatidas na grande imprensa tiveram, no entanto, amplo apoio da população, o que também pode explicar sua recuperação parcial na pesquisa Datafolha.

“Esta semana o governo saiu das cordas”, eu respondi ao Heródoto Barbeiro no JRN quando ele me perguntou o que havia mudado no cenário político. Além da queda na inflação e no valor da cesta básica, também o anúncio da safra recorde de grãos serviu para dar um novo fôlego ao governo, ao mesmo tempo em que as revelações sobre os cartéis e as fraudes no Metrô paulistano jogavam os tucanos na defensiva.

Se a economia dava seus primeiros sinais positivos depois de muito tempo, também no campo político a presidente retomou a iniciativa ao promover um festival de reuniões com líderes de partidos da base aliada. Se até agora nada de muito positivo resultou destes colóquios, o fato é que Dilma retomou o diálogo com os parlamentares, que andava engasgado desde o início do ano.

Como casais em crise, Executivo e Legislativo pelo menos já estão conversando. E Dilma teve motivos para comemorar: “A queda da inflação é uma maravilha!”. Quando os repórteres tentaram mudar de assunto, perguntando sobre se o tal do trem-bala sai ou não sai, ela desconversou: “A cesta básica é mais importante”.

E é mesmo. Trem-bala, a esta altura do campeonato, em que as cidades exigem mais e urgentes investimentos em serviços de transporte público, é uma rematada bobagem. Melhor mesmo esquecer este assunto de uma vez por todas.

Com esta oposição, e se não errar muito, o governo Dilma pode confirmar as previsões do mago João Santana, que de vez em quando acerta, e até o final do ano voltar a índices de popularidade mais próximos aos do primeiro semestre, em que chegou a bater o recorde de 65% de aprovação. De quebra, afastaria de vez a onda em torno do “volta Lula”.

Nesta sexta-feira, em viagem ao Rio Grande do Sul, Dilma parecia já saber das boas novidades da pesquisa e mostrou-se bastante animada com sua campanha pela reeleição, embora a negue: “Eu não faço campanha. Sabe por quê? Todo o resto tem que fazer campanha porque quer o meu lugar. Eu estou exercendo o governo. A troco de que eu vou fazer campanha? Eu vou é governar”. É isto mesmo que ela deve fazer. O resto é consequência.

Metrôgate

A melhor definição da semana sobre o imbróglio em que os tucanos se meteram nos trens e trilhos do metrô paulistano foi dada hoje por um leitor da “Folha”, Cristiano Rezende Penha, de Campinas, SP:

“De duas uma: ou o governo do PSDB é muito incompetente por não perceber que milhões de reais eram desviados há anos dos contratos do Metrô, ou o governo do PSDB é muito “competente” por desviar milhões de reais dos contratos do Metrô há anos e sem ninguém perceber”.

Bom final de semana a todos.

FPA lança pesquisa sobre mídia

 

 
Por Cecília Figueiredo, no sítio da Fundação Perseu Abramo:

 
A Fundação Perseu Abramo (FPA) lança na próxima sexta-feira, 16, a partir das 17h30, a pesquisa “Democratização da mídia”, com transmissão online pela tevê FPA. Realizada pelo Núcleo de Estudos e Opinião Pública (Neop) da FPA, o levantamento se baseou em 2.400 entrevistas com pessoas na faixa etária de 16 anos e mais, que vivem em áreas urbana e rural de 120 municípios das cinco macrorregiões do país.


Sob a orientação de Gustavo Venturi, do departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), e Vilma Bokany (Neop), o estudo tem por objetivo principal investigar as percepções da população brasileira sobre os meios de comunicação.

O evento, aberto a jornalistas de mídias empresariais, alternativas e de movimentos sociais, já tem confirmadas as presenças de Beá Tibiriçá, diretora do Coletivo Digital; João Brant, radialista e membro da Coordenação Executiva do Intervozes (Coletivo Brasil de Comunicação Social); Joaquim Palhares, advogado e fundador da Agência Carta Maior; Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo, jornalista e professor de Jornalismo da ECA-USP; e Miro Borges, jornalista e fundador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Escândalos do PSDB inundam o JN

Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

A notícia dentro da notícia. O Jornal Nacional da última quinta-feira levar ao ar uma reportagem com quase oito minutos de duração tratando de escândalos envolvendo o PSDB de São Paulo foi mais importante do que o conteúdo da matéria, do qual quem se interessa por política já soubera pelos jornais impressos, pelo rádio e pela internet durante o dia.


Abaixo, a matéria lida por Willian Bonner e Patrícia Poeta durante longos minutos, possivelmente um recorde de veiculação de notícia incômoda para o PSDB desde que o partido chegou ao poder federal, em 1995. É longa, mas quem não assistiu deveria ao menos lê-la, pois é surpreendente tanto pela duração quanto pelo conteúdo.

Prossigo depois do texto reproduzido a seguir.

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Jornal Nacional

Edição de 8 de agosto de 2013

Empresa francesa é suspeita de pagar propina a servidores de governos do PSDB

Uma empresa francesa é suspeita de pagar propina para servidores do Governo de São Paulo em troca de benefícios em contratos.

O caso foi em 1998. Foram indiciadas 11 pessoas, inclusive secretários de estado na época.

O pagamento de propina teria ocorrido para viabilizar um contrato entre empresa francesa Alstom e a então estatal de energia do estado de São Paulo, a EPTE.

De acordo com o inquérito da Polícia Federal, a companhia de energia obteve um crédito no exterior, junto ao banco francês Societe Generale, de R$ 72,7 milhões para adquirir equipamentos do grupo Alstom.

A Polícia Federal ressalta que a contratação do crédito milionário foi feita sem licitação. E só foi possível porque a Alstom idealizou um esquema de pagamento de suborno para funcionários públicos paulistas para recompensá-los pela aprovação do contrato.

De acordo com o documento da Polícia Federal, o esquema de pagamento usava pessoas com empresas no exterior que recebiam recursos do grupo Alstom “para depois repassá-los aos beneficiários finais, servidores públicos do governo do estado de São Paulo, no primeiro semestre de 1998″.

Nessa época, o estado era governado por Mário Covas do PSDB. Uma das contas, segundo o inquérito, era de Jorge Fagali Neto. A Polícia Federal diz que naquela época, embora fosse diretor financeiro dos Correios, há evidencias de que ele tinha livre trânsito por todas as secretarias de Estado.

A Polícia Federal afirma ainda que Jorge Fagali Neto integrou na distribuição de valores para agentes públicos paulistas que ele mantinha conta não declarada no exterior e que ocultou a origem de valores recebidos em virtude de pagamento de propinas, também no exterior. Por isso, ele foi um dos indiciados.

Outra empresa no exterior utilizada para lavar o dinheiro da propina foi a MCA Uruguay.

De acordo com reportagem publicada nesta quinta-feira (8) pelo jornal O Estado de São Paulo, “o dono da MCA, Romeu Pinto Junior, confessou a PF ter servido de intermediário do pagamento de propinas a funcionários públicos paulistas a mando da Alstom e por meio da MCA”.

A Polícia Federal afirma que Andrea Matarazzo, na qualidade de secretário de energia e presidente do conselho administrativo da EPTE tinha o pleno conhecimento de tudo.

A investigação cita o depoimento do então presidente da EPTE, Henrique Fingermann. Henrique declarou que o secretário Andrea Matarazzo tinha conhecimento de todos os procedimentos que levaram á assinatura do contrato de crédito com o banco Societe Generale.

A Polícia Federal afirma que há indícios de que Matarazzo tenha se beneficiado juntamente com o partido político, o PSDB, das vantagens indevidas arquitetadas pelo grupo Alstom.

E usa isso como argumento para indiciá-lo por corrupção passiva. A Polícia Federal indiciou os dois ex-secretários e mais onze pessoas em agosto do ano passado.

O inquérito foi encaminhado para o Ministério Público Federal, mas a denúncia ficou parada porque o MP considerou que era necessário obter mais informações sobre o caso.

O advogado que representa a estatal EPTE afirma que não conseguiu ter acesso ao inquérito da Polícia Federal e que o crime prescreveu.

“A prescrição conforme o Artid, já ocorreu e portanto caberia um pedido de habeas corpus em favor dos meus clientes”, afirmou o advogado Pedro Iokoi.

O Ministério Publico Federal considera que o crime de lavagem de dinheiro ainda não prescreveu.

O ex-secretário de energia de São Paulo, Andréa Matarazzo, qualificou como um disparate ter seu nome ligado a supostos favorecimentos. E disse que no período em que foi secretário não teve conhecimento, não discutiu nem assinou qualquer aditivo ou contrato que esteja sendo investigado. Ele afirmou ainda que as atas das reuniões podem comprovar o fato. Andrea Matarazzo acrescentou que é com muita indignação e repulsa que vê seu nome envolvido nas denúncias.

Segundo o ex-diretor dos Correios, Jorge Fagali Neto, o Ministério Público nunca atribuiu a ele qualquer ato de violação à lei penal e que não interferiu em nenhuma das empresas citadas, nem celebrou contratos com a Alston ou a Siemens.

A empresa MCA Uruguay e o então presidente da EPTE, Henrique Fingermann, não foram localizados.

Em nota, o PSDB declarou que repudia veementemente a tentativa de alguns setores de envolver, sem provas, o partido e seus quadros em casos de corrupção. O PSDB disse ainda que não compactua com a corrupção e espera que os casos sejam investigados e, se houver, responsáveis que eles sejam punidos.

José Serra é citado em mensagens de diretores de empresa investigada por cartel

O jornal “Folha de São Paulo” publicou nesta quinta-feira (8) uma reportagem, em que afirma que o ex-governador de São Paulo, José Serra, do PSDB, foi citado em uma troca de e-mails entre executivos da Siemens – uma das empresas investigadas por suposta prática de formação de cartel. Segundo o jornal, uma mensagem sugere que, para evitar atrasos, Serra teria se mostrado favorável a um acordo entre concorrentes, em uma licitação para a venda de trens ao estado. O ex-governador nega ter cometido irregularidade – e afirma que a empresa Siemens não recebeu qualquer vantagem.

Em reportagem publicada nesta quinta (8), o jornal Folha de S.Paulo reproduz um email enviado em 28 de março de 2008 por Nelson Marchetti, funcionário da Siemens, para outros colegas da empresa, entre eles o então presidente da Siemens no Brasil Adilson Primo.

A mensagem do executivo da Siemens relata uma conversa que ele diz ter tido com o então governador de São Paulo, José Serra, e o secretário de Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, durante um congresso, em Amsterdã, na Holanda.

O Jornal Nacional também teve acesso ao mesmo e-mail, que diz: “Gostaria de confirmar que conversei com o senhor Serra (governador do estado de São Paulo) e com o senhor Portella (secretário de Tranportes Metropolitanos de São Paulo), em Amsterdã, na semana passada, quando o senhor Serra confirmou que se a proposta da CAF não tiver condições de ser qualificada a concorrência será cancelada”.

Segundo a Folha de São Paulo, na época, a Siemens disputava com a espanhola CAF uma licitação aberta pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos para compra de trens, e ameaçava questionar na Justiça o resultado da concorrência se não saísse vitoriosa.

Na mensagem, o executivo relata o motivo para um eventual cancelamento da concorrência. “A razão básica para este posicionamento é a diferença de preço entre a CAF e o nosso. Estamos pelo menos 15 % acima do preço líquido da CAF. Poderia ser um risco para o governo do Sr. Serra”.

A “Folha de São Paulo” diz que o ex-governador Serra sugeriu a Siemens um acordo para evitar que uma disputa empresarial travasse a licitação da CPTM. No email do executivo da Siemens, a proposta seria detalhada. “Eles mencionaram que considerariam o fornecimento de algo em torno de 30% dos trens, por parte da Siemens. A “Folha de São Paulo” sugere que “eles” seriam Serra e o ex-secretário Portella.

O ex-governador José Serra divulgou uma nota dizendo que resultado da licitação quebrou a hegemonia de algumas empresas no mercado. Serra afirmou que a Siemens não foi subcontratada pela CAF, a empresa vencedora da concorrência. Ou seja, segundo Serra, a Siemens não obteve nenhuma recompensa. Ele afirmou que chegou a dizer publicamente que se a concorrência fosse anulada não contrataria a que estava em segundo lugar, pois a diferença de preços era grande. E que faria nova concorrência. José Serra disse ainda que o estado de São Paulo atuou contra a Siemens na Justiça, para garantir a licitação vencida pela empresa espanhola. A nota também é assinada pelo ex-secretário José Luiz Portella.

A empresa Siemens voltou a declarar que tem cooperado com as autoridades, mas que não pode se manifestar sobre investigações em andamento no Conselho Administrativo de Defesa Econômica.

*****

Ufa! Tudo bem que não foi uma reportagem como aquela de cerca de vinte minutos que uma única edição do mesmo Jornal Nacional apresentou contra o PT durante o julgamento do mensalão após meses de longas matérias como essa acima – ou maiores – sendo apresentadas todos os dias, de segunda a sábado. Mas pode-se dizer que, à diferença do de costume, todos os elementos que vão se avolumando contra os tucanos de São Paulo foram apresentados corretamente. Ou quase…

É claro que o que pesa contra Serra não é ele ter interferido numa concorrência em favor de um dos concorrentes a fim de “evitar atrasos”. O que parece é que ele interferiu no processo instruindo concorrentes a “se acertarem”, chegando a avisar a um deles de que seu preço estava 15% mais alto que o do outro e isso é uma ilegalidade que macula o próprio princípio da concorrência, que deveria justamente evitar acertos como esse em busca dos menores preços para o erário público.

Todavia, como ainda não há provas de que isso ocorreu, vá lá que o Jornal Nacional divulgue a explicação de Serra sem deixar muito claro que essa é só a versão dele, diferente do que as investigações sugerem.

Enfim, a matéria não foi má. Até se pode admitir a cautela usada em nome da presunção da inocência a que qualquer um – inclusive os políticos – tem direito.

Porém, algo ficou de fora. Parte desses fatos são conhecidos há muito tempo. O escândalo da Alstom ganhou as manchetes do mundo inteiro em 2008 e até a última quinta-feira jamais tinha aparecido na Globo dessa maneira. Aliás, mesmo nos grandes jornais da época não ganhou tanto destaque quanto tem recebido em toda a grande mídia nos últimos dias.

Dizer que um fenômeno dessa magnitude ocorreu devido à gravidade do caso não chega a ser apropriado, apesar de ser parte da verdade. Há outras causas.

Um escândalo dentro do escândalo é 45 inquéritos referentes às denúncias contra o PSDB paulista terem sido arquivados pelo aparelhado Ministério Público de São Paulo, que teve que desarquivá-los por pressão internacional, pois as multinacionais europeias corromperam políticos em outros países além dos que corromperam no Brasil e as notícias só estavam sepultadas aqui, no único dos países envolvidos no caso Alstom em que ninguém foi punido.

Paralelamente aos tucanos, portanto, a grande imprensa brasileira e o MP-SP têm responsabilidade pela impunidade de políticos que não estão sendo acusados de comprar votos no Congresso para aprovar projetos como os petistas envolvidos no mensalão, mas de roubar em benefício próprio, para enriquecerem.

Fiquemos, porém, no caso da imprensa – por enquanto.

A eterna blindagem de corruptos amigos pela Globo e companhia limitada vem despertando uma irritação crescente na sociedade que vem se voltando contra a grande imprensa em geral e que tem, inclusive, desencadeado violência, com depredação de unidades móveis de vários veículos e expulsão de repórteres da Globo das manifestações, além de depredação de imóveis da emissora.

Dessa maneira, a recente “imparcialidade” que a emissora abraçou pode derivar de medo de ter ultrapassado os limites após constatar a progressiva degradação de sua imagem, até por conta das denúncias de ter cometido crimes contra a ordem tributária que podem colocá-la, cedo ou tarde, no lugar em que o PSDB está hoje.

Recentemente, escrevi que a Ocultação dos escândalos Globo e PSDB-Siemens foi longe demais. Como se vê, a conversão global ao bom jornalismo das matérias acima – que talvez não seja tão bom, mas que é bem melhor do que a artilharia histérica que a emissora dispara todo dia contra o PT desde 1989 –, está longe de ser produto de mera crise de consciência.

Alstom e Siemens financiaram Alckmin e outros tucanos

 

Envolvidas em suspeitas de corrupção, multinacionais fizeram doações legais para o governador de São Paulo e tucanos como José Anibal, Julio Semeghini e Barros Munhoz
 
por Andre Barrocal —  no sítio Carta Capital
Agência Brasil
Geraldo Alckmin

Governador tucano recebeu doações das empresas na campanha estadual de 2002

 

 

As multinacionais Alstom e Siemens ajudaram a financiar a campanha do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, quando o tucano disputou o cargo em 2002. Na eleição seguinte, os atuais secretários estaduais José Anibal (Minas e Energia) e Julio Semeghini (Planejamento), ambos do PSDB, e Rodrigo Garcia (Desenvolvimento Social), do DEM, e o líder de Alckmin na Assembléia Legislativa, o tucano Barros Munhoz, receberam contribuições de uma ou de outra empresa.

As doações foram legais e informadas pelos candidatos em prestações de contas entregues à justiça. Perto do gasto eleitoral total que eles declararam, são irrisórias. Por isso, valem pelo simbolismo. O patrocínio expressou uma preferência política das companhias pelos tucanos e seus aliados. Neste sentido, alimenta a suspeita de que PSDB, Alstom e Siemens são parceiros em obras superfaturadas e desvio de recursos públicos, um esquema sob apuração de várias autoridades.

Em 2002, Alckmin recebeu 5 mil reais da Siemens e 1 mil reais da Alstom. Era a primeira vez que concorria ao cargo. Ele concluía o mandato de Mario Covas (PSDB), morto em 2000. Segundo as denúncias sob investigação, foi no governo Covas (1995-2000) que começou o vínculo tucano com as multinacionais. As duas são responsáveis até hoje por contratos bilionários com o trem e o metrô paulistas. Alckmin gastou no total 12 milhões de reais na eleição de 2002. Ele foi o único candidato a governador de São Paulo a ser financiado pelas multinacionais naquela campanha.

Quatro anos depois, Anibal e Semeghini disputaram e conquistaram uma vaga na Câmara dos Deputados com financiamento da Siemens. O primeiro recebeu 4 mil reais da empresa. Ele declarou ter gasto 1,3 milhão na campanha. Na ocasião, Anibal era vereador em São Paulo, cargo para o qual se elegera em 2004 com apoio financeiro da Alstom. Na Câmara de Vereadores, Anibal foi líder do então prefeito José Serra (PSDB). A secretaria que Anibal comanda hoje cuida de uma área em que atuam Alstom e Siemens. Ambas fornecem equipamentos para usinas térmicas e hidrelétricas.

Em 2008, o jornal norte-americano Wall Street Journal publicou reportagem que informava que o Ministério Público da Suíça investigava a Alstom por subornar agentes públicos em diversos países em troca de contratos. Um dos casos de pagamento de propina teria ocorrido na obra da hidrelétrica de Itá, localizada em Santa Catarina.

Semeghini recebeu da Siemens 3 mil reais na campanha de 2006, na qual declarou ter gasto ao todo 965 mil reais. Além dele e de Anibal, a empresa alemã financiou só mais um candidato naquela eleição: o paranaense Osmar Dias, do PDT. A doação de 8,8 mil reais para Dias foi feita durante o segundo turno da campanha para o governo do Paraná. Dias concorreu contra Roberto Requião, do PMDB, que tentou e conseguiu se reeleger. Dias era apoiado por Alckmin, que disputava a Presidência contra Luiz Inácio Lula da Silva, que por sua vez aliava-se a Requião.

Barros Munhoz e Rodrigo Garcia elegeram-se deputados estaduais em 2006 com apoio financeiro da Alstom: 1 mil reais e 2 mil reais, respectivamente. Ambos declararam à justiça um gasto eleitoral de 1,3 milhão de reais. Eles foram os únicos candidatos financiadas pela multinacional francesa na eleição.

Eleito, Munhoz foi líder do governador José Serra na Assembléia em 2007 e 2008. Nos quatro anos seguintes, presidiu a Assembléia Legislativa – dois anos no fim do mandato de Serra, dois em outra gestão de Alckmin. Desde março de 2013, ele é líder de Alckmin na Assembléia. É quem comanda a tropa do governador contra a instalação da CPI do Metrô, defendida pelo PT. Em nota na sexta-feira 9, Munhoz disse que o pedido de CPI “não passa de mais uma manobra midiática de parlamentares oposicionistas com foco nas eleições do ano que vem”.

Cantanhêde “paz e amor” é sinal de Datafolha “cheirosa”?

no blog Tijolaço

Não sei se a coluna de hoje de Eliane Cantanhêde foi motivada por alguma “inside information” da pesquisa Datafolha programada pra sair este final de semana.

Mas que tem toda a pinta, tem.

A colunista da “massa cheirosa” já se sai com explicações para uma eventual recuperação de prestígio para Dilma Roussef.

Afinal, a Presidenta:

  1. “não sai da TV, do rádio, dos jornais, da internet, ocupando todos os espaços que a oposição não tem como disputar” (meu Deus, como alguém consegue dizer uma coisas destas, sendo a mídia brasileira o que é, a verdadeira oposição, como admitiu, não faz muito, a presidente da Associação de Jornais, da mesma Folha da Cantanhêde!);
  2. “As guerras da presidente parecem bem marqueteiras: são polêmicas e geram reações, mas têm ressonância na maioria da população –ou do eleitorado–, que aprova um plebiscito, a reforma política, os royalties para a educação e a queda de braço com os médicos para que mais municípios sejam atendidos.”;
  3. “Dilma também passou a conversar (dizem que está até aprendendo a ouvir) com o PMDB e os partidos aliados. “
  4. “Ela até liberou uma bolada para os parlamentares”;
  5. “começa a ser interrompida a sequência, que parecia interminável, de notícias ruins na economia.“;
  6. “os protestos das ruas refluíram de um lado e a rede da internet recrudesceu de outro, querendo arrancar o sangue dos tucanos no escândalo da Siemens.”

Cantanhêde termina sua coluna dizendo que “não se sabe o que acontecerá com os ventos e com Dilma nas próximas pesquisas, mas a mudança de clima na política já dá para sentir”.

Dá sim, sobretudo quando uma colunista tão tucana e parcial começa a admitir que as coisas não vão tão bem para os adeptos do “quanto pior, melhor”.

Por: Fernando Brito