MARX E A MODERNIDADE CAPITALISTA — parte 10

 
Por Augusto Buonicore
 
Podemos afirmar que a visão de Marx sobre o colonialismo, presente no Manifesto Comunista, era ainda insuficientemente crítica. Existia na obra uma boa dose de eurocentrismo e de evolucionismo, um tributo que Marx e Engels pagaram à sua época. Isto era bastante visível quando afirmavam a capacidade da burguesia de arrastar “para a corrente da civilização até as nações mais bárbaras”; ou seja, se valorizava acima da conta o papel civilizador da burguesia. No entanto, em vários escritos posteriores os autores do Manifesto se mostraram mais críticos e menos otimistas em relação à expansão do capitalismo pelo mundo.

                

                            O pensador comunista Karl Marx (1818-1863)                                                   

Analisando os efeitos da dominação britânica sobre a Índia, Marx afirmou:

“Os hindus não poderão colher os frutos dos novos elementos da sociedade, que semeou entre eles a burguesia britânica, enquanto na própria Grã-Bretanha as atuais classes governantes não forem desalojadas pelo proletariado industrial, ou enquanto os próprios hindus não forem bastante fortes para acabar de uma vez para sempre com o jugo britânico. De qualquer modo, podemos estar certos de que assistiremos, em futuro mais ou menos distante, à regeneração deste interessante e grande país.”

Continuou ele:

“Somente quando uma grande revolução social se apropriar das conquistas burguesas, o mercado mundial e as modernas forças produtivas (…), somente então o progresso humano terá deixado de assemelhar-se a esse horrível ídolo pagão que só bebia o néctar no crânio do sacrificado.”

Essa tese sobre o papel civilizador da burguesia seria ainda mais relativizada em outros escritos posteriores, especialmente quando o autor analisou o caso da dominação inglesa na Irlanda, em relação à qual ele se colocou “de forma decisiva a favor dos irlandeses oprimidos, contra seus opressores”. De fato, “a Inglaterra jamais governou a Irlanda senão empregando o terror mais ignóbil e a corrupção mais detestável e, enquanto subsistirem as condições atuais, nunca poderá governá-la de outra forma” (carta de Marx a Ludwig Kugelmann, 24/11/1869).

Em outra carta (de Marx a Sigfrid Meyer e August Vogt, 04/1870), referindo-se à libertação da Irlanda, Marx escreveu:

“A tarefa especial do Conselho Central em Londres é despertar na classe operária inglesa a consciência de que a emancipação nacional da Irlanda não é para ela uma abstrata questão de justiça e de humanitarismo, mas condição primeira de sua própria emancipação social.”

Uma previsão equivocada presente no Manifesto foi a de que a tendência de unificação dos mercados mundiais, através da expansão do capital, representaria o desaparecimento ou a redução dos conflitos nacionais e entre os povos. Apesar disso, após poucas linhas seus autores vinculavam o fim definitivo dos conflitos entre as nações ao fim das classes sociais, através de uma revolução social e proletária. Mas, no geral, a expectativa era otimista em relação às possibilidades da expansão do mercado e à integração do mundo, ainda que sob o signo do capitalismo.

Na próxima seção veremos como os teóricos marxistas do final do século 19 e início do século 20, como Lenin e Rosa Luxemburgo, detectaram o caráter opressivo e, portanto, não civilizador da expansão do capitalismo na sua fase imperialista.

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