MARX E A MODERNIDADE CAPITALISTA — parte 5

Por Augusto César Buonicore

 

 

Na seção anterior vimos que, na obra de Berman, destinada a analisar a chamada “modernidade”, não existia nenhuma proposta para a construção de uma nova modernidade que fosse alternativa e oposta à modernidade destrutiva do capitalismo na sua fase imperialista. No fundo existia um temor conservador sobre o futuro constituído por uma revolução.

                

                                                                                

O pessimismo e o conservadorismo de Berman ficam também claros na seguinte passagem do texto:

“Por fim, nossas dúvidas e ceticismo quanto às promessas dos agentes promotores (de revoluções) devem conduzir-nos a questionar uma das promessas fundamentais de Marx: a promessa de que o comunismo, ao preservar e, na verdade, aprofundar as liberdades trazidas pelo capitalismo, nos libertará dos horrores do niilismo burguês (…). É fácil imaginar como uma sociedade empenhada no livre desenvolvimento de cada um e de todos pode muito bem desenvolver suas próprias e peculiares formas de niilismo. De fato, um niilismo comunista pode vir a ser bem mais explosivo e desintegrador que seu antecedente burguês (…), pois, enquanto o capitalismo reduz as infinitas possibilidades da vida moderna a limites preestabelecidos, o comunismo de Marx pode lançar o ego liberado na direção de imensos espaços humanos desconhecidos, sem qualquer limite” (Berman, 1987: 11).

Perry Anderson, respondendo a Berman afirmou:

“A coesão e a estabilidade, que Berman se pergunta se o comunismo seria capaz de encontrar algum dia, reside para Marx na própria natureza humana que o comunismo finalmente viria a emancipar ― uma natureza muito distante de uma mera catarata de desejos sem forma. Apesar de toda a sua exuberância, a versão que Berman dá de Marx, enfatizando de modo virtualmente exclusivo a liberação do eu, acaba por aproximar-se desconfortavelmente (…) das suposições da cultura do narcisismo” (Anderson, 1986: 14).

Para Berman, a proposta de constituição de uma comunidade dos produtores associados não seria mais do que uma quimera utópica que, se pudesse ser realizada, necessariamente seria varrida pelas ondas avassaladoras e a-históricas (ou supra-históricas) da modernidade. A constituição de um movimento de trabalhadores estável, assentado na solidariedade de classe, que brotasse das condições comuns de exploração e de opressão, pareceu-lhe possível apenas provisoriamente. Berman, assim, chegou a conclusões antiassociativas.

Escreveu ele:

“Mas, caso seja verdadeira essa visão abrangente da modernidade, por que razão as formas comunitárias produzidas pela indústria capitalista seriam mais sólidas que qualquer outro produto capitalista? Não seria o caso dessas coletividades se revelarem, como tudo o mais, apenas temporárias, provisórias, condenadas à obsolescência? Marx, em 1856, se referirá aos operários da indústria como “homens-frutos de uma moda passageira (…), nada mais que uma invenção dos tempos modernos, como o próprio maquinário”. Se isso é correto, sua solidariedade (…) poderá mostrar-se tão transitória quanto as máquinas que eles operam ou os produtos que daí resultam (…). Como poderão eventuais vínculos humanos crescer e frutificar num solo assim precário e movente?” (Berman, 1987: 102)

O proletariado perderia as condições históricas e sociais de se constituir enquanto agente de transformação social, pois a modernidade dissolveria permanentemente os laços de solidariedade produzidos pelas posições que aquele assumiria no mundo da produção e na própria vida social. A modernidade capitalista não produziria mais os seus próprios coveiros, mas apenas operários-para-o-capital.

Não deixe de conferir a parte 6 desta série.

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