MARX E A MODERNIDADE CAPITALISTA — parte 1

 
Por Augusto Buonicore

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 A Octavio Ianni

                

      Cena de “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin                                                   

Modernidade, burguesia e capitalismo Há 25 anos foi publicado no Brasil o controvertido livro de Marshall Berman, Tudo que é sólido se desmancha no ar. Nele o autor buscou traçar um itinerário da chamada “modernidade”. Nessa empreitada propôs se utilizar das contribuições teóricas de Karl Marx. Por isso o capítulo mais importante e, talvez, mais polêmico, seja aquele no qual analisa o papel do Manifesto do Partido Comunista para a compreensão da modernidade. O próprio título do livro foi extraído de uma das passagens daquela obra seminal de Marx e Engels, publicada em 1848.
Berman procurou apoiar-se numa determinada leitura de Marx para justificar seus próprios pontos de vista. Mas, contraditoriamente, suas teses se chocaram frontalmente com as ideias centrais daquele autor, inclusive aquelas presentes no próprio Manifesto, e desembocaram num niilismo perfeitamente adequado à ideologia predominante naqueles anos: o pós-modernismo. O autor adotou esse posicionamento embora fosse adverso a essa ideologia, contra a qual ele acreditava esgrimir.
A obra de Berman se transformou numa complexa síntese entre o radicalismo do pensamento crítico norte-americano dos agitados anos 1960 e o pessimismo crônico reinante na intelectualidade pós-moderna a partir da década de 1970. Por isso podemos dizer que essa é uma obra paradigmática: reflexo de um tempo de crise.
O autor acabou construindo uma noção de “modernidade” abstrata e supra-histórica, em contraposição às ricas indicações de Marx e Engels, presentes no Manifesto do Partido Comunista e em outras obras. Essas indicações teriam permitido a construção de um conceito de “modernidade” histórico e concreto. A “modernidade” de que nos falava Marx é sempre a “modernidade capitalista”, historicamente determinada.
Essa limitação levou Berman a assinalar como um dos paradoxos do Manifesto Comunista o fato de que seus autores parecessem mais empenhados em exaltar os potenciais do capitalismo do que em derrubá-lo. O documento de 1848 teria realizado “uma apaixonada, entusiasmada e quase lírica celebração” de “trabalhos, ideias e realizações” da burguesia, de uma maneira que nem “os próprios burgueses teriam sido capazes de expressar”.
Perto do Manifesto, as obras dos apologistas do capitalismo, como Milton Friedman, pareceriam “pálidas e sem vida”. Continua Berman: “Os celebrantes do capitalismo falam-nos surpreendentemente pouco dos seus infinitos horizontes, de sua audácia e energia revolucionária, seu espírito de aventura, sua capacidade não apenas de dar mais conforto aos homens, mas de torná-los mais vivos” (Berman, 1987: 97).
Contudo, Berman esqueceu um “pequeno detalhe”: Marx nos falava do capitalismo em sua fase progressista e não em sua fase de decadência, iniciada justamente na segunda metade do século 19 e agravada nas primeiras décadas do século seguinte.
É o que aprofundaremos na próxima parte desta série de artigos.

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